Sexta-feira, Abril 22, 2005

[Opinião] Casa da Música, astúcia e oportunismo

Jornal PÚBLICO . Local Porto . 22/4/2005

Casa da Música, astúcia e oportunismo
por Gustavo Carvalho, estudante da Faculdade de Arquitectura do Porto

A Casa da Música tem vindo a suscitar um largo número de opiniões. Todos os pareceres são unânimes na constatação de que o Porto se revitalizou nas comemorações que se elevaram em torno desta obra (...). Músicos, maestros, compositores manifestaram o seu reconhecimento pela qualidade do edifício, no que diz respeito aos seus atributos acústicos. Não será Bach, Maria João Pires ou a Manuela Azevedo que se sentirão de uma maneira muito especial dentro da Casa da Música; este será um sentimento extensível a todas as pessoas (...) e, isto sim, é a democratização da arquitectura.
Democratizar a arquitectura impõe a necessidade de a retirar de um pedestal que alguns arquitectos tendem a todo custo tentar segurá-la. É com astúcia e oportunismo que se estabelece a democratização arquitectónica (...)
Questionam uns acerca da dificuldade que as pessoas possam ter em entrar "quase sem querer" no edifício. Será que as pessoas não sabem o que querem? E, na eventualidade de não o saberem, haverá "objecto" mais apelativo (...) do que o edifício da Casa da Música? Quem constrói os ícones são as pessoas, não os arquitectos (...).
A Casa da Música introduz na leitura global da metapolis uma referência na transição e articulação do núcleo histórico, com um dos eixos de expansão mais relevantes, a Avenida da Boavista. O tom irónico que caracteriza o arquitecto holandês justifica-se numa base de explicações retroactivas, que tendem sempre a consolidar a sua lógica comercial de encarar a arquitectura. Muitos são os arquitectos que o criticam por isso, e que acabam, na sua profissão, por encarnar uma espécie de D. Quixote, obstinado na sua luta contra um moinho, aqui representando uma sociedade que impossibilita as predeterminações tão lineares e desejáveis por alguns urbanistas e arquitectos. A arquitectura (...) não se compadece com leituras indiferentes ao tempo e às modas. Perceba-se que a eficácia do arquitecto no exercício da sua função reside numa estratégia de astúcia e oportunismo. Se Koolhaas se foi embora a rir, eu compartilho desse gozo e distancio-me assim de alguns "pobres, tristes e pouco interessantes".

1 Comentários:

Anonymous Anónimo escreveu...

Astúcia e Oportunismo, é uma das características mais marcantes em torno da CM, que atingiu o seu cúmulo nestes últimos dias. Todos falam, principalmente muitos pseudo artistas subsidio dependentes, que foram antes críticos e agora aparecem em " bicos de pés" no intuito de se pronunciarem sobre o quanto valem pela sua ignorância e falta de transparência, e qual a parte a que lhes cabe no processo.
O Presidente da República, já há muito nos habituou a discursos retóricos e complexos " dejá vu", e sem qualquer sentido.Mas a atitude mais provinciana, é aproveitar a inauguração para enviar "recados". Reporto-me só ao facto de Pedro Burmester e o saudosismo que deixou ao Presidente. Enfim este país não tem jeito com cérebros destes. Pedro Burmester como Director Artístico da 2001, fez um péssimo trabalho como o próprio tribunal de contas percebeu, e muitos de nós temos conhecimento. Muitos já haviam percebido antes. Quanto ao facto de ele ser pai da ideia da CM, isso é pura ignorância. Já há muito se falava em muitos circulos sobre essa necessidade. Fomos todos nós que pagamos a CM. Pedro Burmester com milhões pariu uma migalha.Pedro Burmester é Pianista, e quando foi Director da 2001 foi o que ele fez melhor junto com os amigos.Alguma da programação da 2001 foi tratada no Bar Meia Cave e pouco mais que isso. A CM, em termos arquitectónicos é já um ícone da arte contemporânea na sua universalidade, muito para além de qualquer PB, e se o seu autor sorri, então vamos sorrir todos juntos. Relativamente ao Pedro Burmester, sinto que escrevi pouco relativamente ás asneiras que fez.
Ele Director da CM, seria um antro de amigos e conhecidos,falsos sonsos, como aconteceu na 2001. Só gostaria que a Ministra da Cultura, se deixe também de saudosismos e não alimente mais polémicas. Somos todos necessários mas ninguém é insubstituível, e a direcção artística da Casa da Musica actualmente, está muito bem entregue. Esqueça-se o ontem, as falsas intenções e empenhemo-nos todos na acção e promoção da CM.

Oliveira Martins

10:17 PM  

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